Em seu 5º CD Marcelo Quintanilha faz MPB com arranjos ásperos,
guitarra em punho e poesia afiada


Em seu novo disco, Quinto (o número 5 de sua discografia), lançado pelo selo baiano Páginas ao Mar, com distribuição da Tratore, o músico paulista Marcelo Quintanilha vem diferente, disposto a mostrar novidades. "Quero quebrar as expectativas nesse quinto disco. As pessoas têm uma opinião formada sobre mim: o Quintanilha que toca MPB, samba, banquinho e violão. Não quero me acomodar numa imagem consolidada", decreta Quinta, como hoje é conhecido

Para começar, o músico adotou uma postura mais rock’n’roll, de contestação, sem fugir de suas raízes. A MPB moderna continua sendo o Norte do músico, agora com o tempero do produtor musical Serginho Rezende. Quintanilha hoje quer falar do mundo, do tempo, das pessoas. Mais. Quer contribuir para que as pessoas reflitam mais. “Quero ação, atitude”, brada.

Para atender ao pedido de Quintanilha, que buscava uma sonoridade mais rebelde, uma atitude mais forte, o produtor trocou o violão pela guitarra. Quinta não negou fogo. “Criamos arranjos mais ásperos, como no rock'n'roll, elaborando e valorizando suas letras inteligentes", diz Sergio Rezende.

"Serginho Rezende conseguiu o que eu desejava: um disco bem brasileiro e moderno. Por ser baterista também, ele pensou tudo de uma maneira diferente. Serginho começa a fazer os arranjos pela concepção rítmica, coisa que eu nunca tinha pensado em fazer. Compositor geralmente dá o start com o violão, pensando a letra, as harmonias. Ele focou no ritmo, deu um gás nas músicas e preservou o acento brasileiro das minhas composições. O resultado ficou mais dançante”, diz, satisfeito, Quintanilha, que já trabalhou com Serginho Rezende em seu trabalho anterior, Mosaico (2005).

O repertório é autoral, com exceção de O Tempo Não Pára (Cazuza e Arnaldo Brandão) e de Porta-Estandarte (Geraldo Vandré e Fernando Luna). “As 12 composições falam sobre temas que estavam me incomodando: o ser humano, a sociedade moderna, a relação dela com o meio ambiente, o tempo. Falo como um cidadão preocupado, que não agüenta mais ver as pessoas jogando a sujeira debaixo do tapete.”

O CD tem cara de banda, a cozinha (guitarra base, baixo, batera) foi gravada ao vivo. Na retaguarda, estão os músicos Lou Schimidt, dividindo as guitarras com Quinta, o percussionista Felipe Roseno, Magno Vito se alternando entre o baixo elétrico e o acústico e, por fim, o produtor Serginho Rezende na bateria. A arte do encarte é assinada por Mauricio Negro e Eduardo Okuno. Mauricio é amigo de Quinta dos tempos da faculdade e já tinha concebido o projeto gráfico de seu primeiro CD, Metamorfosicamente (1995). “Suas pirogravuras expressam visualmente o conceito exato do CD”, aprova Quintanilha.



FAIXA-A-FAIXA

Conforme o artista, a ordem do repertório “tem uma lógica, que colabora no encadeamento de todo o discurso, de uma musica à outra, como num degradé”. Uma Fresta abre o CD com levada rápida, guitarra, baixo e bateria bem marcados para realçar o tom de protesto da composição. No mesmo pique, vem o rap inédito Última Esperança, quase sem melodia (“A despeito dos canalhas do Planalto/ Eu sempre sonho alto, ainda estou nessa batalha/ Não quero migalha, esmola ou caridade/Quero ter dignidade da pátria que me pariu”).

Mais suave, Quanto Tempo Mais ressalta a voz de Quinta sobre uma melodia elaborada e letra premonitória: “Quem verá o céu sair dos trilhos?/ Serei eu? Será meu filho?”. O artista questiona a situação do planeta e a forma pela qual a humanidade está se relacionando com ele. Retomando um ritmo mais marcado, com riffs de guitarra do gaúcho Lou Smith ao fundo, É revela sua concepção de Deus: “Deus não marca hora/ Deus não chega ou vai embora/ Deus não tem fronteira/ Não tem lado nem bandeira..”

O produtor Sergio Rezende transformou o blues Money, Money, Money no samba rock que fala de como tudo gira em torno do dinheiro: “Minha inspiração não vale nada/ Paga-se mais pelo tesão de uma boa trepada/ O dízimo é a prestação de sua vaga no céu/Não morra antes da quitação/ Ou sua alma vagará ao léu..” Destaque para a percussão de Felipe Roseno. Com produção musical caprichada, solos de guitarra e levada mais lenta, a versão de Quinta para o clássico de Cazuza (Tempo Não Pára) foi escolhida para reafirmar o discurso de todo o CD.

Com uma poesia contemplativa, Dia Lindo é uma canção especial para Quintanilha, “a que eu escrevi com mais cuidado e que tem uma poesia contemplativa, discorrendo sobre o tempo de uma maneira reflexiva e positiva”. A suavidade musical prossegue em Oásis, composta para o amigo PC Bernardes, convidado para dividir os vocais com o cantor.

Com o arranjo mais enxuto do CD, pontuado por acordes de violão, linhas de baixo acústico de Magno Vito e bateria seca, Ser ou Não Ser foi concebida para remeter à solidão da letra: “Só quando estou só/ Escuto os meus conselhos/ Não me mudo/ Não me cego.” Para falar de amor, Quintanilha escolheu a canção Quando Você Chegar, escrita para a mulher, Vania Abreu.

Da safra de levada mais lenta como a anterior e quebrando um pouco a densidade do CD, Palavras Boas aposta na poesia sem verbo e remete a imagens lúdicas. Retomando um ritmo mais veloz, o músico volta ao clima de denúncia com Será o Benedito. Só Na Multidão continua no pique mais dançante, com letra sobre a alma do artista e seus questionamentos, de sua necessidade de ir na contra-mão.

Porta-Estandarte, escrita por Gerado Vandré e Fernando Luna, fecha o disco com um alento de esperança, um estandarte de otimismo para o artista que começou o disco no protesto. “Eu recebi essa canção há muitos anos numa fita K7 dada por uma amiga quando eu disse que queria parar de fazer música. Ela serviu para repensar minha vida naquele momento e, desde então, a tenho como um estandarte de otimismo. Há nela uma mensagem positiva.”


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