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AUTOBIOGRAFIA


Meu pai me acordava aos sábados de manhã para ir comprar instrumentos na Casa Manon. Flauta doce, transversal, instrumentos de percussão, violões, cavaquinho, bandolim...

Pude tê-los e experimentá-los todos, sempre. Um órgãozinho pequenininho e colorido, que guardo até hoje, foi meu primeiro instrumento. Ele ou um bumbo, com o qual quando tinha dois anos comecei a acompanhar meu pai no acordeon. Não me lembro mais.

Minha mãe, formada em conservatório, tocava acordeon. Deu aulas pra muita gente e tem orgulho de dizer que foi a primeira professora de Nelson Ayres. Diz também que meu pai, que só tocava de ouvido, uma vez vendeu seu acordeon pra comprar a caixa do Scandalli que acabara de comprar. Os dois tocavam juntos e foram os principais incentivadores e responsáveis pela minha iniciação e paixão pela música.

Minha casa sempre teve música. Muita música brasileira. Foi através de meus pais que conheci Cartola, Noel Rosa, Lupicínio Rodrigues, Pixinguinha, Luis Gonzaga, Chico Buarque, Paulinho da Viola, Caetano, Gil. Aprendi a gostar de chorinho, samba, e bossa-nova nas reuniões que meu pai promovia em casa com um Regional formado por amigos e que invariavelmente varavam a noite com muita música brasileira. Sabia quase todo o repertório de Vinícius de Moraes e Toquinho, e dos Festivais da Record, mas por outro lado adorava ouvir discos da Jovem Guarda e tocar o Rock e as baladas de Roberto Carlos, Erasmo, Vanderléia e companhia. A música brasileira preencheu e abasteceu meu universo musical de tal maneira que acabei nunca me interessando pela música internacional, e acho que mesmo que tivesse sido incentivado não me sobraria tempo pra repartir com qualquer outra música que não fosse brasileira. Até muito pouco tempo atrás nunca tinha comprado um disco de música importada; admito que até hoje sou mesmo quase ignorante nesse sentido, mas digo também, sem falsa modéstia, que pude conhecer, e bem, a música feita aqui.

Durante minha infância e adolescência me divertia tirando músicas, tocando teclado de ouvido, afinando minhas orelhas. Tive aulas de música com vários professores particulares, entre eles Ítalo Perón, (que me ensinou quase tudo que sei de harmonia), Rui Saleme, César Nogueira e Ulisses Rocha, que me ensinou principalmente a ser responsável com a música. Além deles, tive também aulas de canto com as cantoras Cida Moreira e Eliete Negreiros, mas sempre tive problemas com a voz. Cheguei a ter um nódulo nas cordas vocais por cantar errado, por gritar demais, principalmente nos jogos do Verdão...

Participava de festivais no colégio Santa Cruz, que sempre foi minha segunda casa, onde eu estudei por onze anos de 1976 a 1986, do primário ao colegial, e onde minha relação com a música floresceu.

Lá, conheci outras pessoas que tinham essa mesma paixão. Formei minha primeira banda, o ”Sopa de Letrinhas”, que tinha também Sergio Simão, meu parceiro em várias músicas, como em "Uma Pedra no Meu Caminho", do disco "Quinta". Foi na época de Santa Cruz também que fiz minhas primeiras canções para minhas primeiras musas, a maioria inatingíveis, outras atingidas com muita ajuda dessas canções.

Depois, na Escola Superior de Propaganda e Marketing, onde estudei de 1987 a 1991 e me formei publicitário, já tinha fundado com o baixista Du Moreira e com o guitarrista e mestre dos barbatuques Fernando Barboza a "Banda de Cá" , que fez durante vários anos o circuito universitário e de teatros de São Paulo. Daí tive minhas primeiras experiências semiprofissionais e a estréia daquele ímpeto de registrar nosso trabalho, de gravar a qualquer custo o primeiro disco, passagem para o profissionalismo.

Tal disco nunca saiu, mas foi nesses tempos, com minha criação já um pouco mais madura, que conheci na ESPM Sergio Villaça, que seria mais tarde o produtor, junto com Bruno Bona, de meu segundo disco, "Quinta".

Sergio foi responsável pelo meu primeiro emprego em uma produtora de jingles, por uma vaga deixada por ele quando foi abrir com Bruno sua própria produtora.

Comecei a trabalhar com publicidade em 1990. Em 1991 me classifiquei para o Novo Festival Record de MPB, de 1992. Era um Festival de porte, e fiquei feliz em estar como compositor mais jovem, com 22 anos, entre as 48 músicas classificadas, de mais de 8.600 inscritas. O festival não vingou, mas foi importante e divertido ter participado. Depois, nunca mais participei de festivais deste porte, e acho que ainda bem. Não gosto de me sentir nas olimpíadas da canção. Não faço música para competir.

Fui estagiário, empregado e depois sócio de Constant Papineanu entre 1993 e 1996 em sua produtora, a RAC. Foi Constant o produtor de "Metamorfosicamente", meu primeiro trabalho. Cedeu o estúdio, reorganizou arranjos, lapidou aquele material confuso que trazia de minha pouca experiência musical. Tornou possível meu sonho do primeiro CD, em 1995.

Aprendi muito nesses anos, pois o disco, independente, dependia de mim para sobreviver. Acompanhei todo o processo pré e pós-lançamento. Até assinar um contrato de distribuição com a Azul Music, e mesmo depois disso, divulgava e promovia o disco da maneira que podia, com uma amiga trabalhando comigo como produtora musical. Consegui muitas coisas nessa época, coisas que pareciam impossíveis de se conseguir sem apoio algum.

Além de compor e cantar jingles dei aulas de violão durante vários anos para rechear meu orçamento. Era divertido, mas cansativo, já que dava aulas na casa dos alunos.

Depois de "Metamorfosicamente", veio o disco "Quinta", em 1998, também lançado pela Azul Music. Junto com Sergio Villaça e Bruno Bona , passei um ano escolhendo o repertório e gravando o CD. Os dois seriam responsáveis, além da produção do disco, por ter me apresentado os músicos que gravaram este meu segundo disco.

São eles o guitarrista João Erbetta, o baterista Marcelo Éffori e o baixista Serginho Carvalho, além do percussionista Marquinhos Babboo e a cantora Carú e do próprio Bruno Bona , que nos shows tocava teclado.

Desde 1996 trabalhei com o diretor de teatro Marcus Vinicius de Arruda Camargo, numa parceria que deu muito certo.

Minhas canções fizeram a trilha sonora de suas três últimas peças: "Desce do Muro Moleca" de 1996, quando fui indicado para melhor canção composta para o prêmio da APETESP; "Um Jeito Assim", de 1998 e "E Sempre e Tanto", de 2000. Para as três peças compus também a música tema, uma experiência totalmente diferente e muito gratificante para mim. Em contrapartida, Marcus dirigiu meus shows, sobretudo no que diz respeito ao cenário e iluminação, para os quais recebi muitos elogios por parte do público.

Em 1999 conheci Vania Abreu , o amor da minha vida. Casamos em Dezembro de 2000. Com ela, meu universo musical se ampliou. Sempre gostei de Salvador e de sua musicalidade. Vania me fez gostar e aprender muito mais. Conheci muitos compositores, fiz muitas amizades.

Em Julho de 2001 nasceu minha primeira filha, Nina, que para mim soa como minha melhor canção.


Vania foi a segunda cantora a gravar músicas minhas. Sua interpretação para "Quando Eu Estava Só" fez parte da trilha da novela "Meu Pé de Laranja Lima" da Rede Bandeirantes em 1998 e agora gravamos juntos uma nova versão para meu disco “Sala de Estar”.

"Mais de Mim", que fiz para ela, foi música de trabalho de seu terceiro CD, "Seio da Bahia”. Antes dela, Ana Flávia tinha gravado "Além da Brincadeira" e "Sem Palavras", em seu disco "Morada".

Em 2002, foi Bêlo Velloso me deu o prazer de me ouvir em sua voz, cantando “Madrugada”, música que fiz para ela e que faz parte de seu mais novo CD, “Pegue ou Largue”. E agora Vania mais uma vez incluiu no repertório de seu próximo disco duas novas canções minhas: “De Volta ao Cais”, que fiz para ela, e “Eu Sou a Multidão”, que dá nome ao CD.


Sobre meu terceiro disco, “Sala de Estar”, lançado em abril de 2003 pela gravadora YBrazil, o que posso dizer é que é um trabalho autoral essencialmente brasileiro e contemporâneo. Sua sonoridade, que faz uma reverência àquela década de 60, da bossa e do pré-tropicalismo, me deixa (como o nome do CD sugere), literalmente em casa.

Além de doze novas canções minhas, duas regravações de Chico Buarque (uma em parceria com Edu Lobo) compõem o repertório do CD.

No final do ano passado, falando com Daniela por telefone, ela me surpreendeu ao me pedir uma música para seu CD novo, que sairia em fevereiro, no carnaval, em homenagem aos 5 anos de seu Trio Tecno. Fiquei surpreso, orgulhoso e com um medo danado de não corresponder.

Ela queria uma coisa bem-humorada, que falasse do carnaval de maneira leve e "colorida", como o carnaval mesmo é. Como o reinado de Mômo é uma de minhas maiores paixões, não foi tão difícil assim me inspirar.

Nasceu "Por Trás da Fantasia", a qual tive a honra de escutar na voz de minha cunhada, com a produção de DJ Zé Pedro. Fiquei Tecno, de repente, mas por trás dessa fantasia ainda sou bastante desplugado.

Esta é a primeira parte da minha história musical. História que construo a cada dia com muito esforço e paciência. História que nunca vai ter fim. A música, afinal, é imortal.


Marcelo Quintanilha